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Violência Urbana: Algumas Considerações.




Em meu TCC da faculdade de Psicologia, o tema da violência urbana foi o que escolhi para dissertar e fazer um estudo bibliográfico (levando em consideração Freud, Lacan, Durkheim e outros). Identifiquei a existência da necessidade de analisarmos a questão da participação parental, identificando quais os papeis de auxilio que oferecem para o estabelecimento do real, ou seja, a contribuição para a construção do suporte para uma subjetividade resiliente e que consiga conviver em ambientes estressantes como os atuais. E o principal desafio nesta atualidade é achar uma posição que nos permita aproveitar o que o sujeito traz além do relato de suas atuações. 

Com esse intuito, busquei tentar compreender o quanto o espaço dos jogos violentos, em contrapartida dos espaços de violência que temos no dia-a-dia contemporâneo, contribui ou influenciam os sujeitos em desenvolvimento psicológico (da infância a adolescência). Segundo a OMS, o que se identifica como violência é “uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação” (Krug; Dahlberg; Mercy; Zwi e Lozano; 2002, p.11). Hoje em dia, seja nas mídias reais ou ficcionais, os muitos tipos (negligências, abusos e etc.) e formas (contra mulheres, crianças ou idosos, por exemplo) de violência são apresentados diariamente a todos nós.

Quando nos referimos aos ambientes que cercam o sujeito e contribuem para sua psiquê, entendemos que isso envolve a família, a escola, os grupos sociais, as amizades, os conflitos vividos, as perdas, as conquistas, as crenças religiosas, os aspectos culturais e econômicos, entre muitos outros. Assim, reforçase a ideia de que estamos diante de um fenômeno complexo e que é difícil aceitar o fato de que, a violência urbana existe em cada vez maior amplitude e precisa ser abordada. E por isso as contribuições têm a função de discutir e questionar algumas conclusões simplistas que estão presentes principalmente no senso comum e são veiculadas na mídia de massa. Sobretudo é fundamental avançar nos estudos sobre os modos de operar e os reflexos que a interação com os jogos eletrônicos tem sobre o desenvolvimento dos sujeitos, bem como suas funções e reais contribuições. Este trabalho, mais que constatações, procurou trazer alguns elementos para discussão e problematização, visando ampliar a compreensão sobre a violência urbana, as implicações patriarcais e também quanto o fator dos jogos eletrônicos violentos para as crianças e adolescentes.

Bauman (1998) nos relatou quanto a sociedade contemporânea que está em uma mar de confusão entre segurança e liberdade. Ao identificarmos que buscamos a liberdade para poder viver como se bem entender, mas que ao mesmo tempo necessitamos de segurança para fazê-lo, o que ascende o impasse que é um dos maiores “porquês” da atualidade. Na medida em que os sujeitos da contemporaneidade conquistam um subterfúgio desse impasse, nasce uma forma diferente de simbolização. Nesse caso, podemos levar em consideração o uso dos meios tecnológicos que existem como armas contra o desentendimento das adversidades atuais (sendo a principal delas, a violência).

Existe algo conhecido como ócio criativo, que pode advir de momentos de lazer ou de simplesmente “nada” que as pessoas desenvolvem. Esse “nada” muitas vezes é aquilo que não irá trazer nenhum benefício visto aos outros. Na atualidade, o ócio criativo tende a acontecer apenas dentro de casa, principalmente na internet que é facilmente adquirida á todos, indiferente de classe social. Essa porta de entrada, a partir de redes sociais vistas como algo extremamente importante para ser parte do social, pode até mesmo tornar-se um ócio dependente, na medida em que as pessoas perdem tempo nesses momentos que poderiam estar passando no social e produzindo novos contextos à sociedade.

Como muito bem visto durante minha trajetória na faculdade de Psicologia na Faculdade São Francisco de Assis de Porto Alegre/RS, existe uma hierarquia de necessidades que as pessoas possuem (Maslow), e após as necessidades fisiológicas, está a necessidade de segurança. Essa necessidade é algo importante para que os sujeitos alcancem o bem-estar pessoal e social para que consigam atingir. Na medida em que não podemos alcançar esse aspecto, existe uma continua insegurança que acaba perpetuando a falta de bem-estar à nível geral, impossibilitando o bem-estar total, a não ser que o sujeito esteja com sua percepção patológica e não esteja a par das situações que nos cercam.

A liberdade tornou-se uma utopia, assim como a segurança, na medida em que a violência está em todos os lugares. Desde o mal cumprimento das funções parentais nos ciclos familiares, como nas ralações interpessoais ruins ou nos próprios meios de comunicação diversos (como rádio, televisão e internet). As noticias estão sempre cheias, trazem conteúdo principalmente da violência cometida ou sofrida por todos.

Tenho como objetivo pessoal identificar melhor essas questões aqui abordadas relacionada à violência urbana, os aspectos do social e psicológicos atuais. Por advir de um ambiente familiar que residia em um bairro estilo periferia em uma zona urbana conhecida como “terra sem lei”, sempre estive em contato com a violência real e simbólica, mas sempre fui mais uma observadora do que parte de um dos lados (quem prática a violência ou de quem sofre a violência). Por esse motivo, criei grande curiosidade para entender esses comportamentos, a luta inconsciente entre passividade e atividade, positividade e negatividade.

Eu conheço uma professora que um dia ela disse que por causa dos muitos caminhos que as pessoas têm, as vezes as pessoas que usam armas ou ladrões podem ter sido até alunos dela. Eu disse que pensava que não, pois se ela, como a boa profissional que penso que ela é, deve ter passado durante sua trajetória como professora, muito mais do que conhecimentos técnicos. Fico pensando em quanto profissionais que realmente produzem muito mais dos seus trabalhos do que o esperado, podem auxiliar nos trajetos de vida de cada sujeito que vive a nossa volta. Lembrando que a não hipocrisia no dia-a-dia, neste contexto, seria uma não propagação da violência que acomete-nos todos os dias.

A violência não é inata nos sujeitos. O sentimento de raiva e angustia pode até ser, mas o ato vil contra outra pessoa, isso é adquirido no meio. Cada pessoa que não considera o outro como a si, que em vez de guardar dentro de si sua raiva e frustrações desconta em outros que muitas vezes nada haver tem com isso, perpetuam os atos violentos, e ensinam aos outros que é muito mais fácil agir contra outro do que suportar as angustias e raiva, e tentar mudar as coisas para si – as vezes até porque o meio não ensinou a ver que poderia acontecer se tentassem. Tem um pensador que fala que somos aquilo que dizem que somos, explicando que toda vez que alguém fala algo sobre nós mesmos que identificamos como uma possível verdade, aquilo pode tornar-se uma verdade absoluta. O fato é que nos tornarmos aquilo que as pessoas que nos cuidam acreditam que sejamos, Winnicott nos trouxe esse pensamento quando disse: “Se você fizer tudo o que pode para promover o crescimento pessoal de seus filhos, vai ter de ser capaz de lidar com resultados incríveis” (Winnicott, 1969, p. 124).

REFERÊNCIAS


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