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Às vezes o óbvio precisa ser dito!

Toda vez que vou atender em consultório, ou em contexto escolar, ou palestrar para adolescentes, sei que preciso adaptar minha forma de falar e interagir. A troca necessária no diálogo com adolescentes é, antes de tudo, reconhecer que estamos falando com alguém em construção (de identidade, de valores, de lugar no mundo...). E, embora isso pareça óbvio, muitas vezes é justamente aí que nos perdemos: falamos para eles, mas não com eles. Entrar no mundo do adolescente não significa concordar com tudo, nem abrir mão do nosso papel de referência. Significa, antes, demonstrar interesse genuíno pelo que faz sentido para ele: suas músicas, suas preocupações, suas formas de ver o mundo, suas dúvidas, até aquelas que parecem simples ou “sem importância” para um adulto. É nesse espaço de escuta que o vínculo se fortalece. E sem vínculo, dificilmente há abertura para qualquer orientação. Mas o caminho não é de mão única: ao mesmo tempo em que nos aproximamos do universo deles, precisamos ajud...
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Tudo bem não estar tudo bem...

Vivemos em uma cultura que valoriza desempenho contínuo, estabilidade emocional e alta produtividade. Nesse contexto, emoções como tristeza, frustração e desalento costumam ser interpretadas como sinais de fraqueza. No entanto, do ponto de vista psicológico, essa leitura é reducionista e potencialmente prejudicial. As emoções chamadas “negativas” cumprem funções adaptativas essenciais. A tristeza, por exemplo, está associada a processos de reflexão, reorganização cognitiva e sinalização de necessidade de apoio (Ekman, 1992). A regulação emocional saudável não implica supressão constante, mas manejo flexível das experiências afetivas. Pesquisas indicam que o uso recorrente de estratégias de supressão emocional está associado a menor expressão afetiva, pior qualidade relacional e maior ativação fisiológica (Gross & Levenson, 1997; Gross & John, 2003; Kula et al, 2026). Quando vulnerabilidades são sistematicamente rejeitadas, pode ocorrer empobrecimento da vida emocional. A dificu...

Funcionais em Nossas Desfuncionalidades: Suficiência Não Precisa Ser Perfeição

Vivemos em uma cultura que nos cobra desempenho constante, estabilidade emocional inabalável e uma ideia quase inalcançável de “normalidade”. Mas a verdade é que ninguém é feito apenas de acertos. Somos atravessados por falhas, inseguranças, medos e, ainda assim, continuamos sendo suficientes. Ter um diagnóstico de transtorno mental não nos reduz a ele. Um laudo não define caráter, potencial ou capacidade de amar, trabalhar e construir uma vida com sentido. Ele é, antes de tudo, uma ferramenta de compreensão. Dá nome ao que dói, organiza o que parecia caos e abre caminhos de cuidado. Ser suficiente não significa não ter dificuldades. Significa reconhecer limites, acolher vulnerabilidades e buscar apoio quando necessário. O autocuidado (que envolve sono, rotina possível, rede de apoio, espiritualidade para quem faz sentido, lazer e momentos de pausa) é um ato de responsabilidade consigo. E a psicoterapia com um profissional qualificado é um espaço seguro de elaboração, fortalecimento ...

Ano novo, vida... qualificada!

 A ideia de um “novo ano, vida nova” costuma vir acompanhada de promessas grandiosas, listas extensas de metas e uma expectativa quase mágica de transformação imediata. No entanto, do ponto de vista psicológico, essa lógica de reinício total tende a gerar mais frustração do que bem-estar. Para 2026, uma proposta mais saudável, realista e potente é pensar em continuidade qualificada , e não em recomeço. Continuidade qualificada significa reconhecer que você não começa do zero. Todos chegamos em um novo ano carregando histórias, aprendizados, conquistas, dores, estratégias que funcionaram e outras que precisam ser revistas. Quando se planta, precisamos antes ter cuidado da terra, buscado sementes e demais materiais para o cultivo. Nada disso é descartável. Pelo contrário: é justamente esse acúmulo de experiências que permite mudanças mais consistentes e sustentáveis. A psicologia nos mostra que desenvolvimento humano ocorre por processos graduais, cumulativos e contextualizados, e...

Atenção psicossocial nas comunidades escolares: entre políticas públicas, território e cuidado integral

 A escola é um dos principais espaços de desenvolvimento humano. Mais do que um local de transmissão de conteúdos, ela é um território vivo, atravessado por relações, afetos, conflitos e vulnerabilidades. Nesse contexto, o Plano Nacional de Atenção Psicossocial (2024) e a implementação da Lei nº 13.935/2019 representam marcos fundamentais para consolidar o cuidado em saúde mental e aplicação de assistência social no cotidiano das comunidades escolares. Para quem ainda não conhece, a Lei 13.935/2019 institui a presença de psicólogas(os) e assistentes sociais nas redes públicas de educação básica, reconhecendo que o sofrimento psíquico, as dificuldades de aprendizagem e os desafios relacionais não podem ser tratados apenas como questões individuais. Trata-se de uma conquista política e equitativa, que insere a saúde mental como responsabilidade coletiva e institucional dentro da escola. Esse debate se torna ainda mais urgente diante das crises que atravessam nosso tempo. Eventos ...

Cannabis, Adolescência e Desenvolvimento: o que estamos escolhendo ignorar?

Fonte: montado com Canva Pro Como psicóloga, acompanho diariamente os impactos das transformações que ocorrem na adolescência — uma fase marcada por intensa reorganização cognitiva, emocional e social. Piaget já descrevia esse período como o momento em que o pensamento se torna hipotético-dedutivo , permitindo ao jovem questionar, formar opiniões, projetar o futuro e construir identidade. É uma fase em que o cérebro está estruturando capacidades essenciais: planejamento, autorregulação, tomada de decisões e pensamento abstrato. E é justamente por isso que um dado recente merece nossa atenção — e nossa ação. A NPR(National Public Radio) divulgou um estudo publicado no JAMA Network Open mostrando que o uso de cannabis antes dos 15 anos está associado a maior frequência de uso ao longo da vida e ao desenvolvimento de problemas físicos e mentais na idade adulta . Por quê? Porque o cérebro adolescente ainda está em construção . As áreas responsáveis por funções executivas — como resolução ...

Estudar também é cuidar de si: como o bem-estar pode melhorar o nosso desempenho

Estudar para uma prova importante, como o ENEM ou qualquer avaliação de alto impacto, exige mais do que apenas horas de leitura e memorização: para um desempenho pleno, é fundamental que o corpo, a mente e o cérebro trabalhem em sintonia. A seguir, explico por que cinco pilares ( autocuidado , regulação emocional , reestruturação cognitiva , consolidação da memória e reserva cognitiva ) são centrais para garantir que o estudo seja não apenas mais eficaz, mas também mais saudável. Autocuidado refere-se às práticas de atenção ao próprio corpo e mente: dormir adequadamente, alimentar-se com qualidade, manter os momentos de descanso, cuidar da hidratação e movimentar-se regularmente. Essas práticas formam a base para que o organismo funcione bem sob demanda, com menores níveis de fadiga, menor vulnerabilidade ao estresse e mais clareza mental. Em um contexto de estudo, o autocuidado evita que o aluno se desgaste precocemente ou caia em “modo emergência” antes da prova. Regulação emocio...