Toda vez que vou atender em consultório, ou em contexto escolar, ou palestrar para adolescentes, sei que preciso adaptar minha forma de falar e interagir. A troca necessária no diálogo com adolescentes é, antes de tudo, reconhecer que estamos falando com alguém em construção (de identidade, de valores, de lugar no mundo...). E, embora isso pareça óbvio, muitas vezes é justamente aí que nos perdemos: falamos para eles, mas não com eles. Entrar no mundo do adolescente não significa concordar com tudo, nem abrir mão do nosso papel de referência. Significa, antes, demonstrar interesse genuíno pelo que faz sentido para ele: suas músicas, suas preocupações, suas formas de ver o mundo, suas dúvidas, até aquelas que parecem simples ou “sem importância” para um adulto. É nesse espaço de escuta que o vínculo se fortalece. E sem vínculo, dificilmente há abertura para qualquer orientação. Mas o caminho não é de mão única: ao mesmo tempo em que nos aproximamos do universo deles, precisamos ajud...
Vivemos em uma cultura que valoriza desempenho contínuo, estabilidade emocional e alta produtividade. Nesse contexto, emoções como tristeza, frustração e desalento costumam ser interpretadas como sinais de fraqueza. No entanto, do ponto de vista psicológico, essa leitura é reducionista e potencialmente prejudicial. As emoções chamadas “negativas” cumprem funções adaptativas essenciais. A tristeza, por exemplo, está associada a processos de reflexão, reorganização cognitiva e sinalização de necessidade de apoio (Ekman, 1992). A regulação emocional saudável não implica supressão constante, mas manejo flexível das experiências afetivas. Pesquisas indicam que o uso recorrente de estratégias de supressão emocional está associado a menor expressão afetiva, pior qualidade relacional e maior ativação fisiológica (Gross & Levenson, 1997; Gross & John, 2003; Kula et al, 2026). Quando vulnerabilidades são sistematicamente rejeitadas, pode ocorrer empobrecimento da vida emocional. A dificu...