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Estudar também é cuidar de si: como o bem-estar pode melhorar o nosso desempenho

Estudar para uma prova importante, como o ENEM ou qualquer avaliação de alto impacto, exige mais do que apenas horas de leitura e memorização: para um desempenho pleno, é fundamental que o corpo, a mente e o cérebro trabalhem em sintonia. A seguir, explico por que cinco pilares (autocuidado, regulação emocional, reestruturação cognitiva, consolidação da memória e reserva cognitiva) são centrais para garantir que o estudo seja não apenas mais eficaz, mas também mais saudável.

Autocuidado refere-se às práticas de atenção ao próprio corpo e mente: dormir adequadamente, alimentar-se com qualidade, manter os momentos de descanso, cuidar da hidratação e movimentar-se regularmente. Essas práticas formam a base para que o organismo funcione bem sob demanda, com menores níveis de fadiga, menor vulnerabilidade ao estresse e mais clareza mental. Em um contexto de estudo, o autocuidado evita que o aluno se desgaste precocemente ou caia em “modo emergência” antes da prova.

Regulação emocional é o segundo pilar: trata-se de como conseguimos perceber o que sentimos (ansiedade, nervosismo, insegurança) e usar estratégias para responder a esses estados de forma adaptativa, por exemplo, respirar de forma consciente, utilizar pausas, redirecionar a atenção para o presente. A regulação emocional permite que, no dia da prova ou nos momentos de revisão intensiva, o estudante não fique “em espiral” de medo ou tensão que bloqueia o desempenho. Estudos recentes apontam que o estresse impacta a memória de trabalho e o desempenho acadêmico.

Reestruturação cognitiva refere-se à prática, típica da abordagem da terapia cognitivo-comportamental (TCC), de identificar pensamentos automáticos negativos (“não vou conseguir”, “vou travar”) e reformulá-los em versões mais realistas e empoderadoras (“eu me preparei”, “posso fazer o melhor que sei”). Essa prática permite que o estudante mantenha um foco funcional, em vez de se perder em autocrítica ou medo, favorecendo comportamentos produtivos (como revisar, descansar, manter a rotina) em vez de bloqueios emocionais.

Consolidação da memória é o processo neuropsicológico que transforma o que foi aprendido em conhecimento duradouro, permitindo recuperação mais eficiente no momento da prova. A boa notícia: esse processo depende fortemente dos hábitos de sono, das pausas, da repetição espaçada e da qualidade dos estudos. Revisões recentes em neurociência mostram que o sono (especialmente estágios de ondas lentas e REM) e a atenção são críticos para a consolidação. Assim, estudar intensivamente sem descanso adequado ou sem pause para recuperação pode comprometer que o conteúdo “grude” de fato e possa ser lembrado de forma fluida.

Por fim, a reserva cognitiva refere-se à robustez do cérebro para lidar com demandas cognitivas sob estresse, fadiga ou quando as condições não são ideais. É como “ter um banco de recursos” que permite continuar funcionando mesmo em situações adversas. Estudos mostram que pessoas com maior reserva cognitiva conseguem compensar melhor o impacto de dificuldades ou perdas em desempenho. No contexto de estudo e prova, isso significa que quem investiu ao longo do tempo em bons hábitos de estudo, em fortalecer a capacidade de atenção, em diversificar leituras, em manter o corpo e a mente saudáveis (assim estará em posição mais favorável para performar com confiança).

Juntando tudo: quando o estudante cuida do corpo e da mente (autocuidado), regula suas emoções, ajusta seus pensamentos, favorece a consolidação do que estuda e fortalece sua reserva cognitiva, ele cria as condições para um estudo e uma prova com mais segurança, menos desgaste e resultados melhores, não como garantia de nota máxima, mas como garantia de que tudo dentro do que pode será utilizado em favor do seu desempenho.

Se em algum momento sentir que o processo está pesado demais, como ansiedades que não diminuem, pensamentos sabotadores persistentes, dificuldades para dormir ou revisar, lembre-se: buscar ajuda é um ato de coragem e autocuidado. Você pode conversar com um(a) psicólogo(a), buscar o serviço de apoio psicológico da sua escola ou universidade, ou mesmo fazer um check-in com o seu orientador ou professor para reorganizar sua rotina de estudos. Estar em suporte não é fraqueza, é estratégia.



Referências

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