Toda vez que vou atender em consultório, ou em contexto escolar, ou palestrar para adolescentes, sei que preciso adaptar minha forma de falar e interagir. A troca necessária no diálogo com adolescentes é, antes de tudo, reconhecer que estamos falando com alguém em construção (de identidade, de valores, de lugar no mundo...). E, embora isso pareça óbvio, muitas vezes é justamente aí que nos perdemos: falamos para eles, mas não com eles.
Entrar no mundo do adolescente não significa concordar com tudo, nem abrir mão do nosso papel de referência. Significa, antes, demonstrar interesse genuíno pelo que faz sentido para ele: suas músicas, suas preocupações, suas formas de ver o mundo, suas dúvidas, até aquelas que parecem simples ou “sem importância” para um adulto. É nesse espaço de escuta que o vínculo se fortalece. E sem vínculo, dificilmente há abertura para qualquer orientação.
Mas o caminho não é de mão única: ao mesmo tempo em que nos aproximamos do universo deles, precisamos ajudá-los, com cuidado e consistência, a se aproximarem do nosso. Isso envolve traduzir (sem impor) aquilo que, para nós, já parece evidente. Por exemplo, a importância de estudar, de aprender coisas diversas, de ampliar repertórios. Para muitos adolescentes, essa ideia não vem acompanhada de sentido imediato.
“Por que eu preciso aprender isso na escola?” é uma pergunta legítima quando sou chamada para falar em uma escola sobre alguma temática, e não vejo isso só como um sinal de desinteresse. Talvez o que falte, muitas vezes, seja explicitar o que está por trás disso tudo: estudar ou aprender algo novo não é apenas sobre conteúdo, provas/notas ou profissão futura. É sobre construir uma base interna, aumentar funções cerebrais (a tal “reserva cognitiva”) que amplia possibilidades, favorece o pensamento crítico, sustenta escolhas e contribui para o bem-estar ao longo da vida. É sobre ter mais ferramentas para compreender o mundo externo e, consequentemente, a si mesmos.
Claro, também é importante incentivar os adolescentes a descobrirem áreas de interesse, aquilo que desperta curiosidade e engajamento. Esse movimento é essencial para que, aos poucos, eles se percebam como alguém que pode ocupar um lugar na sociedade, contribuir e pertencer. Mas reduzir o aprendizado apenas a isso pode limitar seu desenvolvimento. O mundo exige mais do que especialização precoce, também exige flexibilidade, repertório e capacidade de adaptação.
Por isso, às vezes, o óbvio precisa ser dito com mais calma, mais empatia e menos julgamento. Não basta dizer “estude porque é importante”. É preciso construir, junto com o adolescente, o sentido dessa importância. É preciso mostrar, com exemplos concretos, com paciência e presença, como aquilo que hoje parece distante pode, no futuro, fazer diferença. Além disso, incentivar a empatia é essencial e pode fazer parte de diversas conversas no dia a dia escolar.
A compreensão de que "precisamos estar bem para cuidar bem do outro" é algo que pode incentivar relacionamentos mais verticais de cuidado em comunidades escolares. Reconhecer a importância de estar bem para exercer bem o próprio trabalho, qualquer que seja, pode contribuir para um ambiente mais saudável, especialmente quando muitos não estão bem. Na atualidade, onde muitos desconfortos estão palpáveis, falar sobre diferentes assuntos é mais do que justo, é necessário.
No fim, educar e cuidar do diálogo com adolescentes é esse equilíbrio delicado: estar disposto a atravessar pontes nos dois sentidos. Entrar no mundo deles (sem se perder) e, aos poucos, convidá-los a caminhar em direção ao nosso, ampliando horizontes e possibilidades. Porque, no fundo, o que pode sustentar qualquer aprendizado significativo não é uma imposição, mas sim um encontro com o óbvio que precisava ser dito.
REFERÊNCIAS:
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